FAYGA OSTROWER (1920 - 2001) 



Nascida em Lodz, na Polônia, em 1920, filha de família judia, ela chegou ao Brasil em 1934, naturalizando-se em seguida. Começou os estudos artísticos na década de 40, quando se identificou com o expressionismo, forma que lhe permitiu exercitar sua crítica à condição social dos menos favorecidos.

Na década seguinte, interessou-se pelo abstracionismo, no momento em que defender a nova forma significava lutar pela modernização das artes plásticas.

Sua dedicação garantiu-lhe o Prêmio Nacional de Gravura na Bienal de São Paulo, em 1957, o que atraiu a atenção especialmente da crítica internacional.

No ano seguinte, foi premiada em Veneza, época em que já ensaiava deixar o branco-e-preto e aderir aos trabalhos coloridos, que expandiram sua criação.

Depois da Itália, expôs na Alemanha, Estados Unidos Argentina, Inglaterra, Espanha e União Soviética.

Ao mesmo tempo em que consolidava seu estilo criativo, Fayga Ostrower dedicava-se com afinco ao ensino das artes. Seu método, porém, não se limitava à simples transmissão de informação, mas procurava desenvolver e incitar a criação de um olhar crítico.

Decidida a democratizar a linguagem artística, chegou a dar aulas para operários de uma fábrica carioca.

Fayga escreveu ainda livros sobre a história da arte, em que percorreu da pré-história até o século 20.

Em mensagem enviada à família, o então ministro da Cultura do Estado de São Paulo, Francisco Weffort, elogiou sua dedicação:

"Sua preocupação com os processos de criação artística a levou a escrever obras sobre o tema, bem como sobre teoria da arte e análise crítica."

Teoria mais prática

Obras de Fayga Ostrower (acima e na foto abaixo) e a artista dando palestra em Joinville: sem receio de atacar o que é ruim e de dizer que está decepcionada com a falta de transparência dos críticos.

A arte é uma bênção,
diz Fayga Ostrower

Entrevista concedida a Gleber Pieniz e publicada em
"A Notícia" de Joinville em 3 de setembro de 2000,
um ano antes de sua morte

Premiada nas bienais de Veneza e de São Paulo, a gravurista e professora tenta dar ordem aos dispersos valores estéticos da atualidade

Aos 80 anos de idade, a polonesa naturalizada brasileira Fayga Ostrower carrega consigo não só o prestígio de ser uma das mais atuantes artistas plásticas da atualidade, mas também a responsabilidade de defender a arte de ataques conceituais equivocados, de interesses escusos e da superficialidade com que, muitas vezes, ela tem sido tratada.

Defensora romântica das artes visuais como forma de expressão subjetiva lapidada na reflexão estética madura e no aprimoramento técnico constante, Fayga visitou Joinville no início da semana para palestras na Casa da Cultura e na Univille, onde abriu oficialmente o 4º Encontro Estadual do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler).

Na segunda-feira, a gravurista e professora falou sobre os princípios da linguagem da arte em palestras gratuitas à tarde e à noite e, na terça, explicou didaticamente a transição estética entre o impressionismo e o cubismo.

Para a artista agraciada com o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza e com o Grande Prêmio Nacional da Bienal de São Paulo, não há motivos para a arte ser considerada uma entidade estranha à vida cotidiana, uma vez que é expressão facilmente compreendida mesmo por quem acredita nada saber sobre ela.

Usando como exemplo as famosíssimas gravações deixadas pelo homem pré-histórico nas cavernas ao longo dos Pirineus, Fayga lembra que "a arte é a linguagem natural do ser humano e sempre existiu para que todos a entendessem, embora fosse desenvolvida em sociedade".

O problema da mistificação, diz a professora de teoria da arte, composição e análise crítica, é que no rastro dos discursos desnecessariamente herméticos se cria a noção de que qualquer coisa, hoje, pode ser considerada arte - um erro que, segundo a palestrante, se fortalece na incapacidade ou na falta de coragem para discutir o tema com seriedade.

Para Fayga, todas as pessoas têm capacidade para perceber valores como a beleza, a justeza, o equilíbrio, o repouso, a tensão e a harmonia das formas no espaço. Sua palestra teve início na pré-história e passou pela arte egípcia, cicládica, grega, românica, renascentista, moderna e contemporânea para mostrar que muitos conceitos usados com gala pela crítica são familiares mesmo ao mais comum dos mortais, em qualquer cultura ou religião.

Ao Anexo, a artista confessou certo desapontamento com a produção artística atual e disse estar decepcionada com a falta de transparência dos críticos.

"A arte contemporânea é bastante problemática, boa parte não tem o mínimo valor artístico e a mediocridade é muito grande", lamenta.

"Discordo daqueles que dizem não haver mais critérios objetivos: eles existem, sim, e têm base na arte como linguagem e não só como expressão. Uma bandeira desfraldada ou uma bofetada não são atos artísticos".

Alimentando esta ótica (que para alguns tem teor nostálgico), Fayga reúne sabedoria suficiente para lançar críticas tanto à Bienal de São Paulo que a premiou quanto ao mercado de arte.

"Tenho saído muito deprimida das últimas bienais que tenho visto. A última, por exemplo, estava tão fraca quanto as outras", alerta.

"O mercado é uma faca de dois gumes: estimula o artista a produzir, mas seu espírito é contrário à criatividade".

Integrante honorária da Academia Dell'arti del Disegno de Florença (fundada por Miquelângelo), a gravurista não teme admoestações por considerar Marcel Duchamp e Andy Warhol "artistas muito medíocres" e Juarez Machado apenas "um ilustrador": "

O que uma obra de arte tem de mais característico é o seu caráter inovador. Se for arte, você pode vê-la 20, 30 vezes e isso sempre será uma experiência nova", ensina.

Autora de livros como "Acasos e Criação Artística", "Universos da Arte", "Criatividade e Processos de Criação", "A Sensibilidade do Intelecto" e "Goya - Artista Revolucionário e Humanista", Fayga Ostrower desmentiu os boatos de que estes seriam os últimos seminários de sua carreira de mais de 40 anos como palestrante e disse ter agenda lotada até novembro.

Para o ano que vem, a gravurista tem nos planos uma série de seminários em Paris, atividade que conciliará com a incessante produção artística.

"Sinto a arte como uma bênção, um presente da vida. Enquanto puder trabalhar, continuarei produzindo", dispara, mais lúcida do que muitos jovens.

Assumindo-se desiludida com a mídia, Fayga Ostrower chama a atenção para o fato de que grande parte dos acontecimentos culturais não tem a devida atenção dos meios de comunicação justamente em função do interesse financeiro das empresas ou até mesmo da incompetência dos profissionais que deveriam estar mais atentos às atividades artísticas da região em que atuam.

"A gente pensa que no Brasil não acontece nada e os próprios jornais e revistas fazem parecer que as coisas são dessa forma. Ao contrário do que mostram, o Brasil fervilha de eventos e manifestações espontâneas", lembrou, antes de explicar as bases daquela que propõe ser uma nova postura social de encarar da arte:

"Acredito em um espírito, em uma ética que interpreta os valores humanistas não como filantropia, mas como a realização das potencialidades criativas de cada pessoa".

Fayga Ostrower, pintora, desenhista e gravadora, que morreu numa quarta-feira de 12 de setembro de 2001, aos 81 anos, vítima de câncer.

A arte é uma bênção,
diz Fayga Ostrower

Entrevista concedida a Gleber Pieniz e publicada em
"A Notícia" de Joinville em 3 de setembro de 2000,
um ano antes de sua morte

Premiada nas bienais de Veneza e de São Paulo, a gravurista e professora tenta dar ordem aos dispersos valores estéticos da atualidade

Aos 80 anos de idade, a polonesa naturalizada brasileira Fayga Ostrower carrega consigo não só o prestígio de ser uma das mais atuantes artistas plásticas da atualidade, mas também a responsabilidade de defender a arte de ataques conceituais equivocados, de interesses escusos e da superficialidade com que, muitas vezes, ela tem sido tratada.

Defensora romântica das artes visuais como forma de expressão subjetiva lapidada na reflexão estética madura e no aprimoramento técnico constante, Fayga visitou Joinville no início da semana para palestras na Casa da Cultura e na Univille, onde abriu oficialmente o 4º Encontro Estadual do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler).

Na segunda-feira, a gravurista e professora falou sobre os princípios da linguagem da arte em palestras gratuitas à tarde e à noite e, na terça, explicou didaticamente a transição estética entre o impressionismo e o cubismo.

Para a artista agraciada com o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza e com o Grande Prêmio Nacional da Bienal de São Paulo, não há motivos para a arte ser considerada uma entidade estranha à vida cotidiana, uma vez que é expressão facilmente compreendida mesmo por quem acredita nada saber sobre ela.

Usando como exemplo as famosíssimas gravações deixadas pelo homem pré-histórico nas cavernas ao longo dos Pirineus, Fayga lembra que "a arte é a linguagem natural do ser humano e sempre existiu para que todos a entendessem, embora fosse desenvolvida em sociedade".

O problema da mistificação, diz a professora de teoria da arte, composição e análise crítica, é que no rastro dos discursos desnecessariamente herméticos se cria a noção de que qualquer coisa, hoje, pode ser considerada arte - um erro que, segundo a palestrante, se fortalece na incapacidade ou na falta de coragem para discutir o tema com seriedade.

Para Fayga, todas as pessoas têm capacidade para perceber valores como a beleza, a justeza, o equilíbrio, o repouso, a tensão e a harmonia das formas no espaço. Sua palestra teve início na pré-história e passou pela arte egípcia, cicládica, grega, românica, renascentista, moderna e contemporânea para mostrar que muitos conceitos usados com gala pela crítica são familiares mesmo ao mais comum dos mortais, em qualquer cultura ou religião.

Ao Anexo, a artista confessou certo desapontamento com a produção artística atual e disse estar decepcionada com a falta de transparência dos críticos.

"A arte contemporânea é bastante problemática, boa parte não tem o mínimo valor artístico e a mediocridade é muito grande", lamenta.

"Discordo daqueles que dizem não haver mais critérios objetivos: eles existem, sim, e têm base na arte como linguagem e não só como expressão. Uma bandeira desfraldada ou uma bofetada não são atos artísticos".

Alimentando esta ótica (que para alguns tem teor nostálgico), Fayga reúne sabedoria suficiente para lançar críticas tanto à Bienal de São Paulo que a premiou quanto ao mercado de arte.

"Tenho saído muito deprimida das últimas bienais que tenho visto. A última, por exemplo, estava tão fraca quanto as outras", alerta.

"O mercado é uma faca de dois gumes: estimula o artista a produzir, mas seu espírito é contrário à criatividade".

Integrante honorária da Academia Dell'arti del Disegno de Florença (fundada por Miquelângelo), a gravurista não teme admoestações por considerar Marcel Duchamp e Andy Warhol "artistas muito medíocres" e Juarez Machado apenas "um ilustrador": "

O que uma obra de arte tem de mais característico é o seu caráter inovador. Se for arte, você pode vê-la 20, 30 vezes e isso sempre será uma experiência nova", ensina.

Autora de livros como "Acasos e Criação Artística", "Universos da Arte", "Criatividade e Processos de Criação", "A Sensibilidade do Intelecto" e "Goya - Artista Revolucionário e Humanista", Fayga Ostrower desmentiu os boatos de que estes seriam os últimos seminários de sua carreira de mais de 40 anos como palestrante e disse ter agenda lotada até novembro.

Para o ano que vem, a gravurista tem nos planos uma série de seminários em Paris, atividade que conciliará com a incessante produção artística.

"Sinto a arte como uma bênção, um presente da vida. Enquanto puder trabalhar, continuarei produzindo", dispara, mais lúcida do que muitos jovens.

Assumindo-se desiludida com a mídia, Fayga Ostrower chama a atenção para o fato de que grande parte dos acontecimentos culturais não tem a devida atenção dos meios de comunicação justamente em função do interesse financeiro das empresas ou até mesmo da incompetência dos profissionais que deveriam estar mais atentos às atividades artísticas da região em que atuam.

"A gente pensa que no Brasil não acontece nada e os próprios jornais e revistas fazem parecer que as coisas são dessa forma. Ao contrário do que mostram, o Brasil fervilha de eventos e manifestações espontâneas", lembrou, antes de explicar as bases daquela que propõe ser uma nova postura social de encarar da arte:

"Acredito em um espírito, em uma ética que interpreta os valores humanistas não como filantropia, mas como a realização das potencialidades criativas de cada pessoa".


Fonte pesquisa: Encarta-BR 2000

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